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#02

C erto dia, acordei em chamas. Não que meu corpo em carne e sangue estivesse de fato queimando, eu literalmente me tornei o próprio fogo. Minhas pernas, meus braços, meu tronco eram feitos de fios de lume. Acordei com meu quarto em cinzas, de maneira a ser impossível reconhecer o retrato da família na parede. O processo começou com uma estranha febre interna durante a noite, um calor exacerbado no fim do inverno e, depois que peguei no sono, em algum momento da estreita madrugada, minha forma humana entrou em combustão espontânea e deu origem à uma contínua labareda avermelhada de um metro e oitenta e seis de altura. Um absurdo. A princípio me parecia ser uma boa ideia tomar um banho gelado, acalmar os ânimos. Mas com um pouco de raciocínio, concluí com apavoro que um banho gelado seria suicídio. Eu sou feito de fogo agora. Queimo de dentro pra fora. Foi então quando decidi propositalmente derreter o chuveiro. Sobre a série de outras coisas que queimei...

#01

E ra 8 da manhã quando eu soube que você morreu. De ressaca em um quarto de hotel, o telefone tocou e me deu esse soco na boca do estômago. Uma parte em mim queria levantar depressa da cama e correr para casa, mas a outra só queria se enfiar ainda mais sob as cobertas até praticamente ser engolido pelo colchão. Uma parte queria negar que esse fatídico e incomum despertar era real, enquanto a outra não queria ouvir mais nada, sequer mesmo de mim. A primeira parte queria gritar e chorar, a segunda queria colocar as coisas no lugar e zarpar. Foi difícil batalhar em mim.  Quando me levantei de fato, por volta das 11, desleixado como nunca fui, joguei todas as minhas coisas que estavam espalhadas pelo quarto, de qualquer maneira, de volta à mala. Posso ter deixado lá alguns pertences. Não pensei direito. Deixei a porta do quarto aberta ao sair. Luzes acesas, ventilador ligado. Eu não podia me preencher com nada mais além do meu próprio vazio. A dor de ...