#02
Certo dia, acordei em chamas. Não que meu corpo em carne e sangue estivesse de fato queimando, eu literalmente me tornei o próprio fogo. Minhas pernas, meus braços, meu tronco eram feitos de fios de lume. Acordei com meu quarto em cinzas, de maneira a ser impossível reconhecer o retrato da família na parede. O processo começou com uma estranha febre interna durante a noite, um calor exacerbado no fim do inverno e, depois que peguei no sono, em algum momento da estreita madrugada, minha forma humana entrou em combustão espontânea e deu origem à uma contínua labareda avermelhada de um metro e oitenta e seis de altura. Um absurdo.
A princípio me parecia ser uma boa ideia tomar um banho gelado, acalmar os ânimos. Mas com um pouco de raciocínio, concluí com apavoro que um banho gelado seria suicídio. Eu sou feito de fogo agora. Queimo de dentro pra fora. Foi então quando decidi propositalmente derreter o chuveiro. Sobre a série de outras coisas que queimei por ali, foi sem querer. Tentei tomar café, mas estava com um triste gosto de queimado – claro que estava, minha própria boca o queimou. A mesa da cozinha costumava ser de madeira... essa também foi sem querer. Ficou-me claro que eu tinha que sair dali, pois de maneira alguma poderia mais alimentar minha combustão com a mobília ou outra coisa qualquer do meu próprio lar. Seria mais seguro pra todos se eu simplesmente fosse pra rua, exceto para as pessoas que na rua estavam. Senti-me mal quando antes de sair de casa acidentalmente queimei parte dos meus pais com o lastro das cordas na minha cara amarrada. Eles estão bem, foi de primeiro grau.
Aquilo em mim era algum tipo bem diferente de doença, algo além das capacidades de cura do xarope da minha mãe. Eu precisava logo ir ao médico e assim o fiz. Eu odeio hospitais, eles sempre aplicam injeções, mas dessa vez seria diferente porque eu não sou mais feito de carne e sangue, eu sou um menino grande feito de fogo. Fogo não tem medo de agulha. Para ir ao hospital fiquei com medo de tocar no carro, pois nele havia gasolina, então fui a pé. Interessante, me tornei literalmente uma fogueira ambulante. No caminho me ocorreu em mente que se eu não fosse curado, finalmente o whisky me tornaria mais forte. De fato, este meu devaneio se fez. O médico olhou para a minha cabeça quente, levantou a mão direita em posição de questionamento e lançou:
- Mas que tipo de virose é essa?
Não tinha cura.
Essa foi a virada que minha vida deu. Eu me tornei um homem de fogo e tinha que dali então torcer pra natureza me aceitar. Pra igreja me respeitar. Pros amigos do futebol me incluírem. Pros colegas do trabalho me tolerarem. Inclusão social - É assim que se chama? Sou agora um homem feito de fogo e apesar de lindo e reluzente, sou também extremamente diferente. Sou incomum, excêntrico. Meu novo biotipo não aparecerá nas novelas da globo. Costumava ser um homem privilegiado, branco, classe média, ensino superior. E agora sou essa droga de homem de fogo.
O tempo passou depressa, cremando os dias e os meses. Aprendi muito nesse período, sobre mim mesmo e sobre as pessoas ao meu redor. Aprendi sobre as massas, sobre as sombras. Aprendi sobre a luz e a escuridão. Aprendi sobre resiliência, sobre competência, sobre aceitação. Quem diria, aprendi também sobre absolvição. O fato de eu ter me moldado em fogo assustava muita gente, mas eu nunca machuquei ninguém. Eles me abanavam pelas costas tentando me apagar, mas esqueciam-se do efeito físico da entrega de oxigênio à uma labareda: eu me alastrava e crescia diante disso. Aprendizados cansativos... Aprendi a perder o meu medo da chuva, pois a chuva voltando pra terra traz coisas do ar. Perceba que um homem feito de fogo naturalmente deve temer a chuva mas eu sempre gostei desse lance dos quatro elementos estarem unidos. E aprender que a união faz a força não veio do fogo, veio do manifesto comunista que eu queimei. Do fogo aprendi muitas outras coisas. Muitas mesmo. Mas acho que principalmente, aprendi muito sobre o calor e também aprendi muito sobre o frio. Eu sou um homem de chamas num planeta bem morno. E hoje o Brasil é o país tropical mais gelado do mundo. Eu tenho medo. Esse choque térmico não é saudável. Me resfria. Me desgasta.
Era madrugada quando fui a uma pizzaria próxima. Eu não estava com fome e o local sequer estava aberto. Juro que não sou nenhum criminoso, sou um desses homens de bem, comuns, que estão por aí, mas nessa noite, um crime eu cometi: invadi o restaurante (e sequer foi difícil, eu queimei a porta). Aquele dia havia sido o mais cansativo e destruidor desde que me tornei uma fogueira falante e andante. E aquela noite começara como a mais gélida de todos os tempos. Antes de mais nada, explano que essa era a minha motivação. Foi fácil encontrar a fornalha que permanecia acesa e em chamas. Apoiei primeiramente minhas mãos e meu joelho direito sobre o mármore de sua borda e me lancei para dentro dela. E ali me aninhei, como um gato que dá duas voltas em torno de si antes de se deitar, enroladinho. Ali adormeci com os anjos. Eu jamais fui abraçado desde que me tornara essa espécie de homem de fogo. Ninguém pudera. Mas naquela noite, as poucas chamas vindas da lenha que sobrou, me abraçaram e me aqueceram firmemente. Nosso fogo se uniu. Não houve insônia. Quando os bombeiros controlaram o fogo pela manhã, encontraram apenas algumas cinzas.
A princípio me parecia ser uma boa ideia tomar um banho gelado, acalmar os ânimos. Mas com um pouco de raciocínio, concluí com apavoro que um banho gelado seria suicídio. Eu sou feito de fogo agora. Queimo de dentro pra fora. Foi então quando decidi propositalmente derreter o chuveiro. Sobre a série de outras coisas que queimei por ali, foi sem querer. Tentei tomar café, mas estava com um triste gosto de queimado – claro que estava, minha própria boca o queimou. A mesa da cozinha costumava ser de madeira... essa também foi sem querer. Ficou-me claro que eu tinha que sair dali, pois de maneira alguma poderia mais alimentar minha combustão com a mobília ou outra coisa qualquer do meu próprio lar. Seria mais seguro pra todos se eu simplesmente fosse pra rua, exceto para as pessoas que na rua estavam. Senti-me mal quando antes de sair de casa acidentalmente queimei parte dos meus pais com o lastro das cordas na minha cara amarrada. Eles estão bem, foi de primeiro grau.
Aquilo em mim era algum tipo bem diferente de doença, algo além das capacidades de cura do xarope da minha mãe. Eu precisava logo ir ao médico e assim o fiz. Eu odeio hospitais, eles sempre aplicam injeções, mas dessa vez seria diferente porque eu não sou mais feito de carne e sangue, eu sou um menino grande feito de fogo. Fogo não tem medo de agulha. Para ir ao hospital fiquei com medo de tocar no carro, pois nele havia gasolina, então fui a pé. Interessante, me tornei literalmente uma fogueira ambulante. No caminho me ocorreu em mente que se eu não fosse curado, finalmente o whisky me tornaria mais forte. De fato, este meu devaneio se fez. O médico olhou para a minha cabeça quente, levantou a mão direita em posição de questionamento e lançou:
- Mas que tipo de virose é essa?
Não tinha cura.
Essa foi a virada que minha vida deu. Eu me tornei um homem de fogo e tinha que dali então torcer pra natureza me aceitar. Pra igreja me respeitar. Pros amigos do futebol me incluírem. Pros colegas do trabalho me tolerarem. Inclusão social - É assim que se chama? Sou agora um homem feito de fogo e apesar de lindo e reluzente, sou também extremamente diferente. Sou incomum, excêntrico. Meu novo biotipo não aparecerá nas novelas da globo. Costumava ser um homem privilegiado, branco, classe média, ensino superior. E agora sou essa droga de homem de fogo.
O tempo passou depressa, cremando os dias e os meses. Aprendi muito nesse período, sobre mim mesmo e sobre as pessoas ao meu redor. Aprendi sobre as massas, sobre as sombras. Aprendi sobre a luz e a escuridão. Aprendi sobre resiliência, sobre competência, sobre aceitação. Quem diria, aprendi também sobre absolvição. O fato de eu ter me moldado em fogo assustava muita gente, mas eu nunca machuquei ninguém. Eles me abanavam pelas costas tentando me apagar, mas esqueciam-se do efeito físico da entrega de oxigênio à uma labareda: eu me alastrava e crescia diante disso. Aprendizados cansativos... Aprendi a perder o meu medo da chuva, pois a chuva voltando pra terra traz coisas do ar. Perceba que um homem feito de fogo naturalmente deve temer a chuva mas eu sempre gostei desse lance dos quatro elementos estarem unidos. E aprender que a união faz a força não veio do fogo, veio do manifesto comunista que eu queimei. Do fogo aprendi muitas outras coisas. Muitas mesmo. Mas acho que principalmente, aprendi muito sobre o calor e também aprendi muito sobre o frio. Eu sou um homem de chamas num planeta bem morno. E hoje o Brasil é o país tropical mais gelado do mundo. Eu tenho medo. Esse choque térmico não é saudável. Me resfria. Me desgasta.
Era madrugada quando fui a uma pizzaria próxima. Eu não estava com fome e o local sequer estava aberto. Juro que não sou nenhum criminoso, sou um desses homens de bem, comuns, que estão por aí, mas nessa noite, um crime eu cometi: invadi o restaurante (e sequer foi difícil, eu queimei a porta). Aquele dia havia sido o mais cansativo e destruidor desde que me tornei uma fogueira falante e andante. E aquela noite começara como a mais gélida de todos os tempos. Antes de mais nada, explano que essa era a minha motivação. Foi fácil encontrar a fornalha que permanecia acesa e em chamas. Apoiei primeiramente minhas mãos e meu joelho direito sobre o mármore de sua borda e me lancei para dentro dela. E ali me aninhei, como um gato que dá duas voltas em torno de si antes de se deitar, enroladinho. Ali adormeci com os anjos. Eu jamais fui abraçado desde que me tornara essa espécie de homem de fogo. Ninguém pudera. Mas naquela noite, as poucas chamas vindas da lenha que sobrou, me abraçaram e me aqueceram firmemente. Nosso fogo se uniu. Não houve insônia. Quando os bombeiros controlaram o fogo pela manhã, encontraram apenas algumas cinzas.
De fato, quantas vezes não acordamos assim: "apenas algumas cinzas."
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