#01


Era 8 da manhã quando eu soube que você morreu. De ressaca em um quarto de hotel, o telefone tocou e me deu esse soco na boca do estômago. Uma parte em mim queria levantar depressa da cama e correr para casa, mas a outra só queria se enfiar ainda mais sob as cobertas até praticamente ser engolido pelo colchão. Uma parte queria negar que esse fatídico e incomum despertar era real, enquanto a outra não queria ouvir mais nada, sequer mesmo de mim. A primeira parte queria gritar e chorar, a segunda queria colocar as coisas no lugar e zarpar. Foi difícil batalhar em mim. 
Quando me levantei de fato, por volta das 11, desleixado como nunca fui, joguei todas as minhas coisas que estavam espalhadas pelo quarto, de qualquer maneira, de volta à mala. Posso ter deixado lá alguns pertences. Não pensei direito. Deixei a porta do quarto aberta ao sair. Luzes acesas, ventilador ligado. Eu não podia me preencher com nada mais além do meu próprio vazio. A dor de cabeça parecia uma testemunha de Jeová no meu portão, berrando para que eu lhe desse atenção. O elevador não demorara a chegar, pois fora da temporada todo hotel é parado. É da anti-temporada que eu mais gosto, porque é a anti-temporada que me representa. Quando a porta se abriu, vi-me nu ao grande espelho interno, mesmo com todas aquelas pesadas blusas. Eu gosto do frio porque é o frio que me representa. Ao chegar no térreo, entrei novamente em conflito: parte minha não queria o checkout, não queria entrar num carro, não queria ir até o movimentado, bagunçado e barulhento aeroporto. Aeroportos nunca respeitam a calmaria da anti-temporada. Mas aquela outra parte minha sabia que eu estava atrasado. “Corre, vai perder o embarque”. “Não corre, pega mais uma diária”. Você sabe, eu nunca esbanjei dinheiro e luxo. Minhas viagens nunca foram de fato libertinas, sempre foram elas limitadas pelos bolsos. Então apressei-me em contragosto, no objetivo de chegar aquele saguão. Juro, nem me lembro do momento em que dei entrada à minha saída do hotel. Não me lembro do hospedeiro que me atendeu. Não me lembro do que ele disse, do quanto paguei. Não me lembro da noite anterior, nem da anterior, nem da anterior. É isso o que chamam de boa viagem. De alguma maneira acertei as contas, não ainda com a minha alma, muito menos com a sua que se esvai, mas acertei as contas com o gigante e vazio hotel que me abrigou pelos últimos dias. 
Quando pus os pés na calçada, curiosamente deu-me vontade de acender um cigarro. Eu não fumo. Deu-me outras vontades também. Deixei-las para lá. Um homem deve aprender que nem todas as vontades devem ser saciadas. São coisas do diabo, pois somos todos diabos. Dali, vi pássaros, respirei fundo, lembrei-me de Chopin, lembrei-me de casa, lembrei-me de ti. Parti para o aeroporto, enfim. No caminho, aquelas esquinas e aqueles rostos eram engolidos pelos meus olhos pela última vez. Despedia-me. Nunca fui bom com despedidas. Lembrei-me da vitrola que você me deu, esta que ecoa Pink Floyd pela minha casa às vezes. Aquela maldita vitrola forçou-me lembrar de ti por anos, mas nunca me desfiz dela, pois nunca fui bom com despedidas. Quando me dei conta do quanto divagava devagar, fiz questão de acelerar minha chegada à casa dos aviões comerciais. 
Ao longo dessa passagem, aquela pequena voz que me dizia pra ficar foi perdendo forças, dando mais vazão à outra voz, aquela que me dizia que de maneira alguma eu poderia perder a partida. Sai do carro muito veloz e quando entrei no hall aconteceu-me aquilo que sempre nos acontece quando entramos em um aeroporto imenso que mal conhecemos: pra onde vou agora? Orientei-me com pessoas e cachorros de madame presos em capsulas e enfim, encontrei a direção pro gate. Eu estava muito atrasado, tive medo de perder-me lá para sempre. Nesse momento, a voz que me pedia para ficar havia tirado férias e latejava em minha mente apenas a – desde o início - mais consciente e justa voz. Mas inconscientemente eu comecei a quebrar regras a fim de conquistar meu cego objetivo. Cortei uma fila e outra, mas na terceira fui hostilmente barrado pela forte segurança internacional. Ladrou-me: Daqui você não passa sem cartão de embarque! Debati-me por segundos mas compreendi que era o fim da linha. Foi triste ouvir aquilo, quebrei-me por dentro. Isso se dá pelo fato de que eu  realmente não tinha um desses cartões de embarque. Eu nunca o tive. Nunca me cogitou a hipótese de voltar pra casa de avião... Abaixei a cabeça. Permaneci assim, com uma mão terceira aberta no meu peito, por algum tempo. Eu sabia que aquele pequeno e reluzente avião estava por partir em instantes. Foi quando levantei a cabeça e de dentro pra fora, tive um motivo pra sorrir: Lá na frente, do outro lado da linha que separa os munidos de cartão de embarque dos que não o são, na fila principal, estava você. E era apenas isso mesmo. Eu não precisava de diálogo nem precisava de afagos. Queria apenas vir de encontro ao último choque de olhares, o último sorriso lançado, o último aceno distante, o último adeus. Eu que nunca fui bom com despedidas, despedi-me enfim de ti em grande estilo. E depois disso, foram 14 horas dirigindo na direção de casa. 
No dia seguinte, era 8 da manhã quando você soube que eu morri.

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